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Liderança: Quando o erro vira aprendizado. Ou dependência?

Os indicadores de desempenho costumam valorizar velocidade, eficiência e capacidade de resposta. Em ambientes pressionados por resultados, isso produz uma cena recorrente: um profissional comete um erro, a liderança intervém imediatamente, corrige o problema e entrega a solução pronta. A crise é resolvida. Mas a pergunta raramente aparece: quem aprendeu nesse processo?

Imagine uma analista em seu primeiro relatório para a diretoria. Pouco depois do envio, surge uma inconsistência importante. Diante da pressão, o gestor assume a tarefa, corrige o documento e encaminha a versão final. O problema desaparece da mesa. O aprendizado, nem sempre.

A gestão tradicional costuma interpretar esse comportamento como demonstração de competência. Afinal, proteger a operação também faz parte do papel da liderança. O limite surge quando a correção substitui sistematicamente a formação. Nesse cenário, a equipe passa a depender da intervenção do gestor para resolver situações críticas, enquanto sua autonomia permanece estagnada.

Uma contribuição interessante para pensar esse fenômeno vem da antropologia. Ao analisar relações de maestria e domínio em sociedades amazônicas, Carlos Fausto (2008) descreve formas de liderança baseadas não apenas em autoridade, mas em processos contínuos de familiarização, cuidado e incorporação social. O papel do mestre não é simplesmente executar melhor as tarefas. É criar condições para que outros aprendam a participar plenamente da vida coletiva.

Transposto para o ambiente organizacional, esse princípio sugere uma distinção importante: resolver um problema e desenvolver pessoas não são atividades equivalentes. Muitas vezes, a solução mais rápida para o erro é também a que produz menos aprendizado.

Essa reflexão se aproxima das análises de Joanna Overing (1999) sobre confiança e convivência social. Em seus estudos, a coesão dos grupos não depende apenas de regras ou hierarquias formais, mas da qualidade das relações construídas no cotidiano. A confiança emerge quando as pessoas encontram espaço para agir, experimentar e corrigir suas próprias falhas sem que sua legitimidade seja colocada em dúvida a cada erro.

Por isso, diante de uma falha operacional, a diferença entre um gestor que substitui e um gestor que orienta pode ser mais estratégica do que parece. O primeiro entrega uma solução. O segundo ajuda a construir capacidade.

A obra de Peter Gow (1991) também oferece uma pista relevante. Relações de pertencimento não surgem automaticamente pela adesão formal a um grupo; elas são construídas por experiências compartilhadas ao longo do tempo. Nas organizações, momentos de vulnerabilidade costumam revelar como a cultura realmente funciona. É nesses episódios que colaboradores descobrem se serão tratados apenas como executores ou como pessoas em desenvolvimento.

Empresas frequentemente investem grandes recursos em processos, ferramentas e controles para reduzir erros. O desafio é que nenhuma estrutura elimina completamente a necessidade de aprendizagem. Em ambientes complexos, a vantagem competitiva não está apenas na capacidade de corrigir falhas rapidamente, mas na capacidade de transformar falhas em crescimento coletivo.

Talvez a pergunta mais importante não seja como evitar todos os erros. Talvez seja outra: quando eles acontecem, a cultura da organização produz dependência ou produz autonomia?

Se essa resposta não estiver clara, o problema pode ser mais profundo do que os relatórios conseguem mostrar.


Referências

FAUSTO, Carlos. Donos demais: maestria e domínio na Amazônia. Mana, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 329-366, 2008.

GOW, Peter. Of Mixed Blood: Kinship and History in Peruvian Amazonia. Oxford: Clarendon Press, 1991.

OVERING, Joanna. Elogio do cotidiano: a confiança e a arte da vida social em uma comunidade amazônica. Mana, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 81-107, 1999.

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