ToMove Institute: Inteligência Antropológica & Cartografias do Amanhã

Quando o Usuário Inventa Outro Produto

Existe um tipo de pesquisa de mercado acontecendo todos os dias sem formulário, entrevista ou dashboard. Ela aparece quando alguém dobra, adapta, combina, ignora ou reinventa aquilo que recebeu pronto. É a velha gambiarra.

Uma cadeira vira apoio. Uma planilha criada para controle financeiro passa a organizar o atendimento. Funcionários abandonam parte de um sistema oficial e criam um grupo de mensagens para resolver o que precisa andar. Um consumidor encontra para determinado produto uma utilidade que nunca apareceu no planejamento de quem o desenvolveu.

A reação mais imediata costuma ser corrigir o desvio: ensinar o uso certo, melhorar o manual, reforçar o processo. Mas existe outra possibilidade: observar.

Quando pessoas alteram espontaneamente uma solução, elas podem estar revelando uma necessidade que o projeto original não contemplou. Não significa que toda improvisação seja uma inovação esperando para ser descoberta. Algumas são apenas atalhos ruins. Outras surgem por desconhecimento. O interesse está em entender por que determinadas adaptações aparecem, persistem e, às vezes, se espalham.

A Antropologia há muito presta atenção à relação entre pessoas e coisas porque objetos não possuem apenas a função definida por quem os produziu. Eles entram na vida cotidiana, ganham usos, significados e associações que dependem do contexto. Para uma organização, essa mudança de perspectiva é pequena, mas importante.

Em vez de perguntar somente “o cliente está usando corretamente?”, pode ser mais revelador perguntar: “o que ele precisou modificar para conseguir usar?” A diferença parece semântica. Não é.

A primeira pergunta compara comportamento e projeto. A segunda investiga a distância entre o projeto e a vida real. Essa distância aparece em lugares banais: campos de formulário preenchidos de maneira inesperada, funções ignoradas, anotações paralelas, atalhos criados por funcionários, embalagens reaproveitadas, etapas puladas e soluções artesanais inventadas para contornar uma fricção.

Pesquisas declarativas continuam importantes. Perguntar às pessoas o que desejam, pensam ou consideram difícil produz informação relevante. Mas nem toda necessidade chega à linguagem como uma reclamação clara. Às vezes, ninguém reclama. As pessoas simplesmente resolvem.

E justamente por isso algumas das pistas mais interessantes sobre produtos, serviços e processos podem estar menos no que o usuário diz que precisa e mais naquilo que ele já precisou inventar sozinho.

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